domingo, 7 de novembro de 2010

          FORMATURA NO     INSTITUTO JUNGUIANO DA BAHIA
                         Carla Maciel, Carlos São Paulo, Aicil, Ermelinda

No dia 6 de novembro de 2010, aconteceu na Casa do Comércio, mais um evento promovido pelo Instituto Junguiano da Bahia.
Foi um dia de alegrias, pois as turmas puderam se reencontrar. Depois de um dia repleto de apresentações de trabalhos, conforme programação divulgada dias atrás, aconteceu o Ritual de Formatura.


É interessante esclarecer que todos os formandos já estão habilitados a exercer suas atividades assim que cumprem toda a carga horária e exigências de cada curso, mas mesmo assim, não deixa de ser um momento de emoção. É o ritual vivenciado em grupo e que marca a nova etapa.
Registrei alguns momentos do evento e como uma homenagem à todos os que participaram elaborei um pequeno vídeo (idéia oferecida por minha querida companheira Naranda Borges em uma troca de emails no grupo da nossa turma).
Pois é...terminamos a pós-graduação em 2009, mas continuamos em contato, torcendo uns pelos outros e trabalhando juntos em muitos projetos que visam fortalecer e divulgar a Arteterapia.

                                                                            A Turma
Uma turma que questionou, que emocionou e emocionou-se....uma turma que acreditou sempre que estava no caminho certo. Estórias pessoais misturando-se e criando uma única estória...Será arte?
Se a arte tem o poder de comunicar...assim nós fizemos e através dela nos comunicamos, trocamos experiências e crescemos juntos.

Muita paz,
Ana Passaro

sábado, 30 de outubro de 2010


Mais que uma monografia, o livro ARTETERAPIA EM CONSULTÓRIO, de Walkíria Andrade R. Freitas, é um relato sincero de uma profissional que expõe sua prática numa verdadeira “Viagem Interior”. Embora seja resultado de um trabalho acadêmico, o livro atrai o leitor para o conhecimento de informações sobre o histórico, conceituação, pressupostos e metodologia da Arteterapia.
Além do significado e importância da prática das expressões artísticas dentro do contexto terapêutico, buscando evidenciar, através de relatos de casos, a importância do processo no desenvolvimento da estrutura psíquica do ser humano, Walkíria nos leva ao íntimo de experiências humanas individuais, mas que podem muito bem servir de exemplo para nossas próprias vivências.
O enfoque na psicologia Analítica e sua utilização como meio de realizar a expansão da consciência, desenvolvendo o autoconhecimento através da expressão artística diversificada é o grande diferencial dessa arterapeuta, pós-graduada pelo Instituto Junguiano da Bahia e Fundação Bahiana para o Desenvolvimento das Ciências.
Artista Plástica com formação pela UFBA, Walkíria Andrade R. Freitas é também Terapeuta Floral e fica nos devendo agora um relato sobre sua prática nesta área.

Coordenação Editorial

sábado, 25 de setembro de 2010


Você tem direito de ficar triste
Apesar de ser temido por muitas pessoas, esse tipo de sentimento não somente é natural como necessário

                    Foto:  freitasjoycee.blogspot.com

É fato, que sem dúvida, é melhor ser alegre que ser triste tal como cantou o poetinha Vinicius de Morais, mas em tempos de busca de felicidade intensa e constante é importante pensar até que ponto a tristeza pode ser um sentimento ruim e se transformar, de fato, em uma doença como a depressão.

"A obrigação de ser feliz nos deu a falsa impressão de que é contraproducente ficarmos tristes, de que isso é algo necessariamente ruim. É preciso entender que a vida traz contingencialmente situações que nos obrigam e permitem nos voltarmos para nós mesmos, chorar quando é necessário e nem sempre ter prazer ou vontade de estudar, trabalhar, se divertir'', afirma a psicanalista Maria Eunice Santos.

Neste sentido, a tristeza, além de ser um sentimento natural é necessário. De acordo com o coordenador da Enfermaria de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Lucas Quarantini, ela é uma resposta a situações de perda ou de frustrações, em que são liberados hormônios cerebrais responsáveis pela angústia e melancolia.

"Assim como outros tipos de sentimentos, ela nos ajuda a sobreviver. Nos faz pensar, refletir sobre um fato e a buscar soluções, ajudando no amadurecimento. Por isso é importante vivê-la e não rejeitá-la", esclarece.

Portanto a tristeza também tem seu lado positivo. Como já defendiam os estudantes da teoria evolucionista, os sentimentos negativos fazem parte da natureza humana. Sem eles, seríamos presas fáceis das adversidades. Nessa mesma linha, o psicologo americano Edward Diener em seus estudos sobre a felicidade afirma: "Ser feliz demais não é bom. O contentamento em excesso torna as pessoas menos capazes, menos saudáveis, menos atentas a riscos", polemiza.

Na verdade, mais do que ir em busca da felicidade, evitar a tristeza vem sendo o ideal perseguido pela humanidade às custas, inclusive, de altas doses de medicamentos.

Dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária de medicamentos antidepressivos e estabilizadores do humor teve um crescimento de 44,8% no Brasil em quatro anos. O volume de vendas desses medicamentos cresceu de R$ 674,7 milhões nos 12 meses acumulados até outubro de 2005 para R$ 976,9 milhões no mesmo recorte até outubro de 2009.

Na opinião da coordenadora de psicologia do Hospital São Rafael, Marta Souza Graça, mais do que buscar de forma desenfreada a felicidade, as pessoas não tem se permitido estar tristes. "O remédio virou uma fuga rápida e fácil para escapar da tristeza. Para algumas pessoas é muito mais fácil e cômodo tomar uma pílula do que enfrentar a dor", diz.

Essa fuga não apenas camufla uma tristeza que pode se desenvolver de forma muito mais séria no futuro, como ajuda a esconder os casos que realmente precisam de tratamento, causando uma enorme confusão entre o que é tristeza e depressão.

"Costumo dizer que, apesar do crescimento no consumo de antidepressivos, quem realmente precisa de tratamento não está no consultório. O depressivo não costuma correr para o médico em busca de ajuda. Ele normalmente, se isola, esconde o que está sentindo", esclarece o psiquiatra Lucas Quarantini. "(...) Ao contrário do que muitos pensam, a depressão é uma doença muito mais subdiagnosticada do que supertratada".

Os especialistas explicam que existem diferenças bem demarcadas entre tristeza e depressão. Ficar triste porque perdeu o emprego ou um ente querido é normal. "Ao contrário de uma tristeza comum, a depressão nem sempre tem uma causa específica. Pode ser algo vago, difuso, o paciente nem sempre consegue identificar o motivo real da tristeza", diz Quarantini.

Um outro fator importante é que a depressão está sempre acompanhada de outros sintomas, a exemplo de interesse por qualquer atividade, insônia, perda da libido e da energia, ideia de culpa, baixa autoestima e ideias suicidas.

Por Fabiana Mascarenhas


Referência:  CienciaVida@grupoaterde.com.br  09/05/2010

sábado, 4 de setembro de 2010


A Anima e O Animus

Imagem: edgeent.com 

Jung conceituou a anima como toda personificação de todas as tendências psicológicas femininas na psique do homem, caracterizadas pelos “humores e sentimento instáveis, as intuições proféticas, a receptividade ou irracionalidade, a capacidade de amar, a sensibilidade a natureza e, por fim, mas nem por isso menos importante, o relacionamento com o inconsciente”. Já o animus personifica todas as tendências psicológicas masculinas na psique da mulher.

O caráter anima de um homem, segundo Jung, é geralmente determinado por sua mãe em suas manifestações individuais. E sua anima irá expressar-se de maneira positiva ou negativa de acordo com a qualidade da influência que sua mãe teve sobre ele. Se for uma influência negativa esse homem pode se comportar de maneira irritada, depressiva, incerta, insegura e susceptível. Mas isso pode servir-lhe para o fortalecimento de sua masculinidade se ele for capaz de ter controle e dominar essas tendências de cunho negativo. Jung diz que “no interior da alma deste tipo de homem a figura negativa da mãe-anima repetirá, incessantemente, o mesmo tema: "não sou nada. Nada tem sentido. Com todas as outras é diferente, mas comigo... nada me dá prazer". E esses sentimentos trazem uma espécie de apatia, medo, doenças, impotência ou acidentes. A vida ganha uma característica tristonha, opressiva, sombria, e esse estado psicológico pode até levar o homem ao suicídio e a anima torna-se então o demônio da morte.

A anima negativa de um homem também pode ser manifestada em sua personalidade no tipo de observação rancorosa, venenosa e afeminada que ele emprega para desvalorizar todas as coisas. Observação desse tipo sempre contém uma mesquinha distorção da verdade e são engenhosamente destruidoras.

Em contrapartida, segundo Jung, a anima do homem também poderá ser influenciada de maneira positiva se ele teve uma boa experiência com sua mãe. Por outro lado, se foi negativa, pode se tornar afeminado ou explorado por mulheres e agirá de modo a não ser capaz de enfrentar as dificuldades da vida. Pode também torná-lo um homem sentimental, melindroso ou sensibilíssimo.

A mãe é a primeira a receber a projeção da anima do filho, que se dá inconscientemente. Depois, durante o crescimento, o filho vai gradativamente dissipando essa projeção e direcionando-a a outras mulheres. A qualidade desta relação com a mãe determinará a qualidade dos relacionamentos do filho com as mulheres. "Para o filho, a anima oculta-se no poder dominador da mãe e a ligação sentimental com ela dura às vezes a vida inteira, prejudicando gravemente o destino do homem ou, inversamente, animando a sua coragem para os atos mais arrojados”.

“A manifestação mais frequente da anima é a que toma a forma de uma fantasia erótica” Na anima há também igual número de importantes aspectos positivos. É ela, por exemplo, responsável por escolher a esposa certa e por ajudar o homem a identificar os fatos escondidos em seu inconsciente quando o seu espírito lógico falha e se mostra incapaz de compreendê-los. Serve também como espécie de guia, um medidor entre o mundo interno e o Self.

O animus é a personificação masculina na mulher e, como a anima, apresenta os aspectos positivos e negativos. Mas o animus não costuma se manifesta sobre a forma de fantasias ou inclinação eróticas; aparece mais comumente como uma convicção secreta, sagrada. A masculinidade de uma mulher pode ser descoberta quando afirma algo com voz forte, insistente, impondo-a de maneira violenta ou agressiva. Entretanto, mesmo uma mulher bastante feminina pode ter a mesma força firme, rigorosa e inabalável. Jung ainda diz que, “de repente podemos nos deparar com algo de obstinado, frio e totalmente inacessível em uma mulher”.

O animus segundo Jung, tem como um de seus temas favoritos, e que “este tipo de mulher remói sem cessar: ‘a única coisa no mundo que eu desejo é amor - e ‘ele’ não me ama’; ou nesta situação existem apenas duas possibilidade e ambas são igualmente más".


O animus nunca aceita exceções. Como em geral a opinião do animus é uma opinião certa, não podemos contradizê-la facilmente. Entretanto dificilmente encaixa-se numa determinada situação individual, mesmo fora de propósito é uma opinião que parece aceitável. Jung diz que do mesmo modo que a anima masculina é influenciada e moldada pela mãe, o animus feminino também é moldado e influenciado pelo pai. O pai é o responsável por dar ao animus da filha “convicções incontestavelmente “verdadeiras”, irretrucáveis e de um colorido todo especial – convicções que nunca tem nada a ver com a pessoa real que é aquela mulher”. É por esse motivo que o animus, assim como anima, pode, algumas vezes, tornar-se o demônio da morte, porém Jung, complementa dizendo: “O animus negativo não aparece apenas como o demônio da morte. (...)... personifica todas as reflexões semiconscientes, frias e destruidoras que invadem uma mulher durante as horas da madrugada, especialmente quando ela deixou de realizar alguma obrigação ditada pelos seus sentimentos. É então que ela se põe a pensar nas heranças de família e em outros problemas do mesmo tipo – tecendo uma espécie de rede de pensamentos calculistas, de malícia e intriga, que a leva até mesmo a desejar a morte de outras pessoas”.

O animus, assim como a anima, não tem apenas aspectos negativos, “como a brutalidade, a indiferença, a tendência a conversa vazia, as ideias silenciosas, obstinadas e más”. Expressa também um lado positivo enriquecedor; “também pode lançar uma ponte para o Self através da atividade criadora”.

O homem quando se enamora por uma mulher, está projetando a imagem da mulher que há dentro dele. A pessoa que recebe a projeção porta então, um estado de receptividade, este estado Jung chamou de “gancho”. “O ato de apaixonar-se e decepcionar-se, nada mais é do que projeção e retirada da projeção do objeto externo”. A partir daí, ouvimos que a pessoa amada não é exatamente como se pensava, que não é como no início, que mudou, quando na verdade ela nunca foi aquela pessoa, ela só foi usada como suporte da projeção dos próprios conteúdos internos de quem se enamorou por ela.


Walkíria Andrade F.


Referência:

FREITAS, Walkíria de A. R. Arteterapia em Consultório: uma viagem interior. Monografia de especialização em Arteterapia, Instituto Junguiano da Bahia (IJBA), Salvador – BA, 2009.

domingo, 15 de agosto de 2010


Arteterapia no Colégio Márcia Mércia
Projeto "EDUCANDO PARA A PAZ

                  Exposição dos trabalhos do grupo

Na última sexta-feira, dia 13/08, aconteceu no Colégio Estadual Márcia Mércia, no Bairro de Mata Escura, através do projeto “EDUCANDO PARA A PAZ” a realização de oficinas de Arteterapia em grupo para os alunos do ensino fundamental e médio no turno da manhã e da tarde. Nas oficinas os alunos tiveram a oportunidade de pintar Mandalas e conhecer um pouco desta técnica tão difundida em todo o mundo, utilizada como veículo de auto-cura e agente facilitador do autoconhecimento.


A Arteterapeuta Walkíria e alunos

As oficinas foram dirigidas pela Arterapeuta Junguiana Walkíria Andrade F., que observou a mudança da turma durante a realização do trabalho com as mandalas e comenta: “(...) anteriormente os alunos encontravam-se agitados e desconfiados, após o trabalho, mostraram-se mais receptivos, afetivos e na maioria deles percebi que mexeu com sua autoestima. O resultado foi excelente!!!”. 

         
                Mandala  produzida na oficina de Arteterapia

“Nas mandalas estão contidos os símbolos sagrados, como a circunferência, o círculo, o quadrado e o triângulo. Estes símbolos procuram fazer a integração do céu com a terra, do masculino com o feminino, do que está m cima com o que está em baixo, da alma com a matéria”.
                         Walkíria e a professora Cecília
                                                                                  
O projeto “EDUCANDO PARA A PAZ” que já vem acontecendo em algumas escolas do município, é coordenado pela professora Maria Cecília Antunes de Carvalho e consiste na prática pedagógica através do símbolo de uma árvore, denominada por ela de “ÁRVORE DA PAZ”, voltada para a conscientização dos alunos, pais e professores com o objetivo de minimizar a violência e estimular sentimentos de confiança, bondade, amizade, amor, coragem, compaixão etc.


                              Walkíria e alunos
                                                                         
Estiveram presentes, dando apoio a oficina, a coordenadora do projeto Maria Cecília A. de Carvalho, a gestora da escola, Laura Rodrigues, a vice-diretora e demais professores.



Arteterapia e educação


Foto: Walkíria Andrade F.

Celeste Carneiro

Através da nossa experiência ao longo destas três últimas décadas trabalhando com Artes e Educação, pudemos constatar o quanto as atividades artísticas facilitam a aprendizagem de qualquer disciplina, sendo grandes parceiras na produção do conhecimento e do desenvolvimento do potencial humano.

Atividades como dramatização, música, artes plásticas, modelagem e toda uma gama de expressões artísticas, incluindo desenhos feitos no computador, enriquecem as aulas em qualquer nível de escolaridade.

Mais recentemente, em nosso país, o atendimento com Arteterapia tem servido para tratar os mais diversos problemas, tanto de aprendizagem como também para as questões mais difíceis e traumáticas, proporcionando uma visão mais rápida e profunda daquilo que infelicita as pessoas, uma vez que o seu instrumento é o símbolo e não somente as palavras.

A Arteterapia vem sendo usada em clínicas, hospitais, escolas, empresas, como mais um recurso de crescimento interior e bem-estar das pessoas.

A importância maior está naquilo que a arte revela do inconsciente e o seu efeito no consciente, melhorando o seu viver e o seu sentir.

O aprofundamento no estudo das características do ser humano, assim como das suas dificuldades, facilitará a atuação de quem lida com gente.

Numa sala de aula, por exemplo, estão reunidos alunos de diferentes formas de ser. Um professor hábil utilizará de recursos que atinjam a cada um de forma apropriada. O psicoterapeuta Carl Gustav Jung identificou quatro tipos diferentes de pessoas, ou quatro funções psíquicas, acrescidos da forma como elas se colocam no mundo: as que se identificam com o exterior são as extrovertidas; as que trazem suas impressões e valorizam mais o seu mundo interior são as introvertidas. As funções psíquicas são: pensamento - aquelas pessoas que ficam à vontade quando o assunto exige raciocínio lógico; sentimento - fazem julgamento a partir do que sentem; sensação - preocupam-se mais com o aqui e agora, o concreto, o material; e intuição - as pessoas que valorizam os seus sonhos, intuição, a imaginação e dão asas à sua criatividade.

Na aula, se forem utilizados recursos que atendam a todos esses tipos de personalidade, o rendimento será bem melhor. Poderemos usar, por exemplo, os recursos do Mapa Mental, a Imaginação Criativa, Associação, Exercícios de Relaxamento, trabalhos corporais, mandala, etc.

Com algumas dessas atividades as pessoas se aquietam, desenvolvem a atenção e a concentração, estimulam o raciocínio lógico, a habilidade com a Geometria, desenvolvem a organização interna, o que reflete no seu exterior.

Além do trabalho de treinamento de professores e atividades em sala de aula, a Arteterapia tem um lugar de muita eficácia no atendimento individual aos alunos que apresentam alguma dificuldade, seja ela de aprendizagem ou de ordem emocional e familiar.

Autora do livro Arte, Neurociência e Transcendência publicado pela WAK Editora.

www.artezen. org e http://criatividadeecerebro. blogspot. com/. Os livros estão em livrarias por todo o país e também podem ser adquiridos através dos tels (21) 3208-6095 (21) 3208-6113 ou pelo e-mail wakeditora@uol. com.br

sábado, 7 de agosto de 2010

A MANDALA

Mandala de Hamilton Junior
(2009)

Mandala é uma palavra sânscrita, significa círculo e é associada a instrumento que facilita a meditação, o autoconhecimento e a ritos mágicos, assim como é usada na arquitetura sagrada como planta de templos, tendo relação também com o mundo exterior.

Técnica executada desde o começo da civilização, difundida por todo mundo, foi na Índia e no Tibete onde foi mais usada e com consciência da importância da sua prática por aqueles que se interessam pela alma humana e perseguem o sagrado.

Jung estudou a mandala com muita profundidade e, conjuntamente com outros cientistas, aplicou essa técnica de desenho que possuía como objetivo cuidar, estimulando as pessoas a se importarem com o seu processo de crescimento, visando o alcance da plenitude que acontece através da Individuação.

Nas mandalas estão contidos os símbolos sagrados, como a circunferência, o círculo, o quadrado e o triângulo. Estes símbolos procuram fazer a integração do céu com a terra, do masculino com o feminino, do que está em cima com o que está em baixo, da alma com a matéria.

Carneiro (2004), diz que “(...) para beneficiar alguém com essa prática não é imprescindível uma interpretação da mandala. O simples fato da pessoa entrar em contato com essa imagem arquetípica, milenar já traz benefício”.

Torinelli (2009),também explica que a configuração de mandala harmoniosa dentro de um molde rigoroso, denotará intensa mobilização de forças auto-curativas para compensar a desordem interna. “(...) a configuração de mandalas é evidentemente um fenômeno que exprime tentativas de auto-cura não provenientes da reflexão, mas de um impulso instintivo”

Vamos construir mandalas, vamos pintar mandalas!!! E viva a paz interior!!!!!


Walkíria Andrade F.


Referência:
 FREITAS, Walkíria de A. R. Arteterapia em Consultório: uma viagem interior. Monografia de especialização em Arteterapia, Instituto Junguiano da Bahia (IJBA), Salvador – BA, 2009.

sábado, 31 de julho de 2010

As crianças e os seus segredos

  Desenho de Luana Duarte Baralde

Trabalhar com emoções e sentimentos da arteterapia ainda é pouco comum nas escolas. Técnicos realçam potencialidades do método para identificar problemas.

O lápis e o papel branco. A arte-terapeuta Mónica Mariano começa com o material mais familiar para se dar a conhecer ao grupo de seis crianças do 2.º e 3.º anos de escolaridade do 1.º ciclo do Ensino Básico. Os mais pequenos desenham e são estimulados a falar do que lhes vai na alma. Do papel para o barro, do barro para pinturas em papel cenário. Constroem-se casas em cartão, usam-se aguarelas para controlar as tintas mais líquidas. Há berlindes colocados na folha no momento do desenho para que se lide com a frustração de não se conseguir pintar o que se quer. Neste momento, a arte-terapeuta trabalha com marionetas numa das EB1 de Loulé, no Algarve. Mónica Mariano está a realizar o estágio do curso de arte-terapia. Pediu à escola de Loulé que indicasse quais os alunos que tinham problemas ao nível da aprendizagem e do comportamento. Entrevistou as crianças e os pais e seleccionou o grupo com o qual trabalha algumas horas por semana.

É preciso ajustar o método, escolher a arte mais adequada ao grupo. Mónica Mariano adianta que o que se passa dentro das quatro paredes da sala é guardado convenientemente. A arte-terapeuta não entra em grandes pormenores com os pais ou encarregados de educação. Aos professores vai perguntando se há ou não progressos. "Não entro em muitos pormenores. A criança está, de alguma forma, a entregar alguns segredos", explica. "Não vou muito ao detalhe porque a criança precisa dessa confiança", acrescenta. Trabalham-se emoções escondidas, sentimentos guardados que se exteriorizam através dos materiais que são colocados nas mãos. "As crianças podem pintar de outra forma, fazer outra coisa, sem ter de falar das emoções." No fundo, salienta, "trabalha-se mais a criança na sua espontaneidade". Para Mónica Mariano, "a arte-terapia funciona muito bem nas escolas, até em termos de adolescentes porque é um momento que têm para se exprimir, para falar dos seus problemas de uma forma mais livre, não estando restringidos às regras da escola". "É uma forma fantástica de falar das emoções e dos sentimentos", conclui.

Cristina Cruz é arte-psicoterapeuta há seis anos. Exerce psicologia e arte-terapia na EB 2,3 dos Louros na Madeira. Trabalha com alunos dos 10 aos 17 anos, do ensino regular e que frequentam cursos de Educação Formação. Uma sessão de arte-terapia tem três fases. "A primeira de acolhimento das crianças ou dos adolescentes (como foi a semana, acontecimentos especiais de algum aluno); a fase de desenvolvimento onde cada participante expõe as suas angústias de forma expressiva (pintura, escrita criativa, tabuleiro areia, dramatização, colagens), onde depois vamos explorar os sentimentos e emoções de cada um; a fase do encerramento, na qual tentamos conter e sustentar tudo o que se passou na sessão para todos se sentirem acolhidos."

Cristina Cruz considera que a arte-terapia pode ser desenvolvida em qualquer faixa etária. E há frutos que vão sendo colhidos. "O desenvolvimento da criatividade nas crianças e adolescentes proporciona-lhes uma integração diferente da sua forma de percepcionar o meio que os rodeia. De tal forma, que os mediadores da arte-terapia criam um leque de abertura para o próprio self", realça. Na sua perspectiva, há escolas que resistem a abrir a porta a essas experiências. "Penso que nem todas as escolas estão receptivas para esta intervenção. Na escola em que trabalho há uma grande receptividade para a mudança, logo tudo o que surge de novo, e que tenha resultados positivos, é bastante aceite", refere.

Irene Monteiro é psicóloga e está a terminar a formação de arte-terapia. Neste momento, trabalha com um grupo de vítimas de violência doméstica num projecto social. A técnica reconhece que a prática é relativamente nova e que, regra geral, ainda não faz parte de um projecto educativo alternativo. "A arte-terapia pode ser muito útil em contexto escolar porque pode trabalhar com uma população de crianças de risco, em risco de abandono escolar, com dificuldades de aprendizagem, com necessidades educativas especiais." "A intervenção da arte-terapia tem um carácter de tratamento quando há uma problemática instalada. A componente de integração é muito útil", afirma.

Irene Monteiro realça o que a metodologia em que a terapia dá as mãos à arte "trabalha muito de afectos, trabalha questões do foro emocional". "Nas necessidades educativas especiais, a intervenção é muito centrada nos défices cognitivos e a parte emocional, relacional, fica de fora", sublinha. "Na arte-terapia cabem muitas actividades, o que a diferencia é depois o que é feito sobre essas actividades. O arte-terapeuta não é alguém que diz à criança para fazer assim ou de forma diferente, que lhe diz que está bem ou que está mal", acrescenta.

O psicólogo Hugo Cruz usa a arte para trabalhar com alguns alunos recorrendo ao teatro-fórum. A partir de uma peça de teatro, os alunos podem trocar de papéis para mudarem o rumo da história, para tentar resolver problemas identificados na representação. Usa a arte e não a terapia numa lógica, explica, "mais preventiva e educativa e não tanto remediativa". A violência doméstica é o tema que tem percorrido vários estabelecimentos de ensino do concelho de Santa Maria da Feira, onde Hugo Cruz coordena o projecto municipal Direitos & Desafios. O psicólogo afirma que a arte-terapia faz todo o sentido nas escolas. "Pode ser um excelente instrumento para exteriorizar emoções relacionadas com as vivências na escola." "O facto de se ter uma má nota tem uma carga emocional e uma implicação muito fortes", alerta.

A arte-terapia ainda é pouco utilizada nas escolas portuguesas. Esta relação particular entre o sujeito, o objecto de arte e o terapeuta não consta nos planos curriculares. A metodologia é bastante abrangente, uma vez que recorre a diversas componentes artísticas como pintura, desenho, jogos, marionetas, música, expressão corporal, poesia, escrita livre e criativa, colagens, modelagens. Tudo o que estiver ao alcance para abordar emoções e sentimentos. O objecto de arte serve sobretudo para mediar as expressões.

Nas contas feitas pela Sociedade Portuguesa de Arte-Terapia (SPAT) há, neste momento, oito estabelecimentos de ensino a recorrerem a esta prática. "Temos vários membros a actuar em contexto escolar. No Porto, na Grande Lisboa, no Algarve, na Madeira, com grupos diversos em termos de idade, classe social, problemática, etc. A recepção desse tipo de intervenção costuma ser muito boa. Não é mais solicitada por desconhecimento por parte dos profissionais de educação", adianta Daniela Martins, da SPAT. A responsável defende que a arte-terapia deve ser usada em contexto escolar, abrangendo todas as faixas etárias. "As situações podem ser diversas, dependendo do objectivo do trabalho: apoio à aprendizagem, comportamento, desenvolvimento criativo e pessoal, apoio à educação especial, apoio ao desenvolvimento motor, problemáticas específicas do foro psiquiátrico, etc."

No caso concreto das necessidades educativas especiais, Daniela Martins realça que o método pode trazer vantagens ao nível do "apoio ao desenvolvimento cognitivo/motor, apoio à aprendizagem, criação de um espaço de confiança para liberação da dor, facilitar a espontaneidade, trabalhar questões relativas à eventual exclusão social, estimulação sensorial". "A arte-terapia costuma ser muito bem recebida nas escolas, com a utilização das mais variadas técnicas: expressão plástica, musical, dramática, corporal", remata.

Sara R. Oliveira - 2008
http://www.educare.pt/educare/Actualidade.Noticia.aspx?contentid=47B34A8D1F5235B4E04400144F16FAAE&opsel=1&channelid=0


Por Walkíria Andrade F.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Foto: Walkíria Andrade F.

Ensinamento

Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
"Coitado, até essa hora no serviço pesado".
Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.

(Adélia Prado)

Por Walkíria Andrade F.

O que é Individuação? 

Jung: imagem google

“Mudar requer sempre disposição para reconhecer os próprios defeitos e isso dói. Dói despregar-se daquilo em que sempre acreditamos, principalmente em relação a nós mesmos. Autoconhecimento traz muitas dores, mas é uma das únicas estradas que podem nos libertar e levar à realização pessoal mais verdadeira, onde concretizamos toda nossa potencialidade adormecida”.

Para Carl Gustav Jung a individuação é o grande sentido da vida. Mas o que seria esta individuação?

Individuação é o processo de diferenciação psicológica que tem como finalidade o desenvolvimento da personalidade individual. Esse objetivo, todavia, é alcançado por meio de informações arquetípicas e depende da relação vital existente entre ego e inconsciente.

Jung chamou de individuação o processo em que o ser humano torna-se ‘si mesmo’, inteiro, indivisível e diferente “de outras pessoas ou da psique coletiva”.

Jung em uma de suas cartas ao pastor Werner Niederer em 26 de março de 1951, fala da diferença entre perfeição e totalidade, e deixa claro que a totalidade é a meta para a individuação, não a perfeição.

Sobre a individuação, Jung refere-se “à união de luz e sombra, sofrimento e alegria, masculino e feminino”; unidade entre a consciência e o inconsciente; ponte entre as polaridades psíquicas, promovendo a sua união, e traz à consciência parte do conteúdo desconhecido pelo ego; tornar “si-mesmo”, como um ser inteiro, mesmo contendo opostos e diz que o princípio da individuação é a conciliação suprema de opostos.

Na individuação, no que se refere à integração das partes da personalidade, Jung aponta que é preciso lembrar que a personalidade do eu “não contém os arquétipos, mas é apenas influenciada por eles, pois os arquétipos são universais e pertencem a uma psique coletiva sobre a qual o eu não pode dominar”.

Nesse entendimento, o arquétipo é caracterizado por Jung como uma potência psíquica que tem como base a experiência da humanidade e que muito serve à sua individuação quando aparece como símbolo. Imagens específicas levam o sujeito à dimensão coletiva e arquetípica da psique que é distinta da pessoal, que pertence ao ego.

Para Jung, o primeiro estágio do processo de individuação é o confronto com a sombra e lembra que sobre a influência da proximidade entre as pessoas nesse processo, Jung diz: “Diminuir a distância entre as pessoas é um dos pontos mais difíceis e mais importantes do processo de individuação. O perigo é suprimir a distância unilateralmente, causando violação ou ressentimento. Todo relacionamento tem seu ponto ótimo em distância”.

Walkíria Andrade F.


Referência:
FREITAS, Walkíria de A. R. Arteterapia em Consultório: uma viagem interior. Monografia de especialização em Arteterapia, Instituto Junguiano da Bahia (IJBA), Salvador – BA, 2009.

sábado, 12 de junho de 2010



Foto: Walkíria Andrade F.. Trab.com argila


Definindo a Arteterapia

Arteterapia é o termo que designa a utilização de recursos artísticos em contextos terapêuticos; Esta é uma definição ampla, pois pressupõe que o processo do fazer artístico tem o potencial de cura quando o cliente é acompanhado pelo arteterapeuta experiente, que com ele constrói uma relação que facilita a ampliação da consciência e do auto-conhecimento, possibilitando mudanças. É um campo de interface com especificidade própria, pois não se trata de simples “fusão” de conhecimentos de arte e de psicologia. Isso significa que não basta ser psicólogo e “gostar de arte” ou ser artista arte-educador e “gostar de trabalhar com pessoas com dificuldades especiais”. A formação em arteterapia além das matérias de arte e psicologia necessárias, compreende também um corpo teórico e metodológico próprios, que abrange conhecimentos da história da arteterapia, conhecimento dos processos psicológicos gerados tanto no decorrer da atividade artística como na observação de trabalhos de arte, conhecimento das relações entre processos criativos, terapêuticos dos diferentes materiais e técnicas, conhecimento dos fundamentos teóricos e metodológicos da abordagem, vivência pessoal e prática supervisionada.

A Arteterapia é um caminho através do qual cada indivíduo pode encontrar possibilidades de expressão para, através de técnicas e materiais artísticos, processar, elaborar e redimensionar suas dificuldades na vida.
(Trechos extraídos de Ciornai, S. "Percursos em Arteterapia", 2004)

De acordo com o Family Guide to Alternative Medicine (Dicionário de Medicina Natural), a Arteterapia atende a qualquer pessoa que tenha problemas emocionais ou psicológicos ou queira saber mais sobre si própria, especialmente se acha difícil exprimir-se por palavras. É especialmente recomendado em grupo para pessoas com dificuldades no relacionamento com os outros ou que sofram de problemas, como Alcoolismo, Anorexia e Bulimia, Dependência de Drogras, Deficiências Físicas ou Mentais que interferem na capacidade de comunicação. Muitas vezes elas conseguem exprimir medos e necessidades que estão tão profundamente ocultos que a pessoa normalmente nem tem consciência deles. Dar-lhes uma forma visual, com tintas, barro ou qualquer outro meio artístico, pode ser a primeira fase no processo de cura, pois ajuda a pessoa a reconhecer seus problemas e a redescobrir sua capacidade criativa.

Ainda segundo este Dicionário de Medicina Natural: As pessoas que se preocupam por que julgam que não são capazes de desenhar ou pintar, são tranqüilizadas já no início do trabalho, pois que recebendo materiais diversos e conhecendo técnicas variadas têm a oportunidade de se expressarem espontaneamente resgatando o lado lúdico da infância, muitas vezes esquecido e abandonado à medida que cresceram e se tornaram adultos.

Departamento de arteterapia do Sedes
http://http://www.sedes.org.br/
 
 
Por Walkíria Andrade F.

segunda-feira, 17 de maio de 2010


Os arquétipos, os Símbolos e o Inconsciente Coletivo

                                                     Imagem: google

Para Souza (2009), antes de falarmos de símbolos e arquétipos, é preciso que falemos e expliquemos o conceito de inconsciente coletivo. Simplificando, “o inconsciente coletivo é a parte do inconsciente individual que resulta da experiência ancestral da espécie, ou seja, ele contém material psíquico que não provêm da experiência pessoal”. Jung, neste sentido faz uma comparação do inconsciente coletivo com ar, que é o mesmo elemento, as mesmas características e é igual em todos os lugares. É sentido e respirado por todos e não pertence a ninguém.

Souza (2009), explica ainda que “o conteúdo psíquico do inconsciente coletivo são os arquétipos”. Esses arquétipos se dão como um pensamento universal que tem uma carga afetiva específica, que é herdada. “As fantasias individuais são originadas desses arquétipos, assim como a mitologia de todas as épocas”.

Souza (2009) dá o exemplo do desejo de encontrarmos a “cara metade” e faz referência ao arquétipo do par Adão e Eva para isso, assim como da existência de outros arquétipos que representam a união de polaridades.

Por exemplo, esse desejo de encontrar a outra polaridade, essa vontade que vem do inconsciente é algo herdado, trazido de geração em geração, pela família, pela cultura, como um anseio que se propaga e vem reverberando, se propagando através dos tempos, pelos costumes, valores, conceitos, mitos, na forma de “uma tradição”, ou, por exemplo, de um mandato familiar, como um “padrão intergeracional” (da família), assim visto pela psicologia sistêmica. (ANDOLFI apud SILVA, 2008)

Explicando melhor o parágrafo acima, Jung afirma, os arquétipos são imutáveis e inatos, somente se transformam em símbolos ao entrarem na consciência, esses símbolos podem mudar em conformidade com a época e com a cultura, além de evoluírem e serem recicláveis. (SÃO PAULO, 2007)

Assim como diz Jung, como os arquétipos não expressam uma imagem ou conteúdo definido, somente uma variação de detalhes, ele ainda é muito mal compreendido. (SOUZA, 2009)

Sobre esta afirmação podemos lembrar da obra de Gilles Deleuze, que se expressa assertivamente nesta frase do próprio autor e de Felix Guattari: “O quanto se é tentado a se deixar prender aí, a se embalar aí, a se agarrar a um rosto...”. Exprime a necessidade do ser humano em dar rosto, forma, aos conceitos aprendidos para que, assim, seja compreendido. (ACIOLI, 2001)

Assim como esta outra frase da obra “O Grito é Nosso”, citada por Acioli (2001): “Quero confessar com sinceridade, mas meu coração está vazio. O vazio é um espelho que reflete em meu rosto”.(...) “Quero que Deus estenda as mãos para mim... que mostre seu rosto, que fale comigo!”

Neste sentido lembro, ainda de acordo com Acioli (2001), que a obra cinematográfica de Ingmar Bergman, comentada por Deleuze, sobre levar o rosto na direção do vazio traz essa concepção da necessidade do homem de dar rosto aos elementos. Ainda dentro deste pensamento podemos fazer referência a atitude de atribuirmos ao nosso deus uma face, como se não suportássemos a “desterritorialização”.

Os arquétipos estão em nós de várias formas, como é o caso, por exemplo, da figura materna, da mãe boa, do arquétipo do feminino na psique. Que acreditamos ser o amor materno como algo inerente à condição de mulher, como algo sublime, forte mas, ao contrário, explica Elizabeth Banditer em sua teoria do mito da maternidade, que este amor é como qualquer outro e pode variar de acordo com ambições, frustrações, cultura, podendo existir ou não na mulher, “aparecer ou desaparecer, ser forte ou frágil, ter preferência por um filho ou não” mas, ainda assim, insistimos em acreditar inconscientemente naquele amor materno mágico, maior que qualquer outro, que nos é ensinado desde que somos pequenos. (BANDITER apud SILVA, 2008, p. 38).

“Essas crenças arquetípicas não podem ser destruídas e permanecem em nós por toda a nossa existência mas necessitam ser constantemente trabalhados” e esses arquétipos representam as principais estruturas formadoras da nossa personalidade. (SOUZA, 2009)

Souza (2009), salienta que ao contrário dos arquétipos, que não têm conteúdo definido, o nosso inconsciente se expressa pelos símbolos que têm conteúdo definido, “é algo dinâmico e vivo” e vai além do consciente. Podem ser individuais ou coletivos e nos sonhos podem representar um conceito criado pela psique individual ou advindo do coletivo. Em sua obra Jung se reportou mais aos símbolos coletivos, em sua maioria religiosa, como por exemplo, a cruz, o martelo de Thor (símbolo da proteção Divina contra o perigo) entre outros.

Um símbolo, para ser internalizado, estruturado de uma forma diferente da qual foi inicialmente, não basta que mudemos o seu conceito, não basta sabermos a verdade sobre sua história - assim como o conceito do Martelo de Thor, que tem uma conotação negativa, símbolo de medo e desaprovação, uma vez que foi mal usado por Hitler - ele deve ser repetido várias vezes, para que seja desprogramado e reinternalizado na mente, com outra qualidade de sentimento e outro rosto. Esses símbolos podem se dar na forma de nomes, imagens familiares entre outros, mas para ser um símbolo trazem consigo algo mais que um simples significado e tem conotações específicas. (SOUZA, 2009)

Podemos citar vários símbolos, como Jesus, a Virgem Maria, Maria Madalena e Judas que carregam, cada um deles, diversas conotações específicas, com significados peculiares inconscientes que não podem ser explicados plenamente, mesmo para quem não é cristão.


Walkíria Andrade F.


Referência:
FREITAS, Walkíria de A. R. Arteterapia em Consultório: uma viagem interior. Monografia de especialização em Arteterapia, Instituto Junguiano da Bahia (IJBA), Salvador – BA, 2009.

Psicologia Junguiana: evento que acontecerá, ainda esse mes no Rio de Janeiro



Por Walkíria Andrade F.

terça-feira, 4 de maio de 2010




 Inteligência Espiritual - por Dana Zohar



 imagem:killuminati2012...

  
No livro QS - Inteligência Espiritual, lançado no ano passado, a física e filósofa americana Dana Zohar aborda um tema tão novo quanto polêmico: a existência de um terceiro tipo de inteligência que aumenta os horizontes das pessoas, torna-as mais criativas e se manifesta em sua necessidade de encontrar um significado para a vida. Ela baseia seu trabalho sobre Quociente Espiritual (QS) em pesquisas só há pouco divulgadas de cientistas de várias partes do mundo que descobriram o que está sendo chamado "Ponto de Deus" no cérebro, uma
 área que seria responsável pelas experiências espirituais das pessoas. O assunto é tão atual que foi abordado em recentes reportagens de capa pelas revistas americanas Neewsweek e Fortune. Afirma Dana: "A inteligência espiritual coletiva é baixa na sociedade moderna. Vivemos numa cultura espiritualmente estúpida, mas podemos agir para elevar nosso quociente espiritual".

Aos 57 anos, Dana vive em Inglaterra com o marido, o psiquiatra Ian Marshall, co-autor do livro, e com dois filhos adolescentes. Formada em física pela Universidade de Harvard, com pós-graduação no Massachusetts Institute of Tecnology (MIT), ela atualmente leciona na universidade inglesa de Oxford. É autora de outros oito livros, entre eles, O Ser Quântico e A Sociedade Quântica, já traduzidos para português. QS - Inteligência Espiritual já foi editado em 27 idiomas, incluindo o português (no Brasil, pela Record). Dana tem sido procurada por grandes companhias interessadas em desenvolver o quociente espiritual de seus funcionários e dar mais sentido ao seu trabalho. Ela falou à EXAME em Porto Alegre durante o 300 Congresso Mundial de Treinamento e Desenvolvimento da International Federation of Training and Development Organization (IFTDO), organização fundada na Suécia, em 1971, que representa 1 milhão de especialistas em treinamento em todo o mundo. Eis os principais trechos da entrevista:

O que é inteligência espiritual?

É uma terceira inteligência, que coloca nossos atos e experiências num contexto mais amplo de sentido e valor, tornando-os mais efetivos. Ter alto quociente espiritual (QS) implica ser capaz de usar o espiritual para ter uma vida mais rica e mais cheia de sentido, adequado senso de finalidade e direção pessoal. O QS aumenta nossos horizontes e nos torna mais criativos. É uma inteligência que nos impulsiona. É com ela que abordamos e solucionamos problemas de sentido e valor. O QS está ligado à necessidade humana de ter propósito na vida. É ele que usamos para desenvolver valores éticos e crenças que vão nortear nossas ações.

De que modo essas pesquisas confirmam suas idéias sobre a terceira inteligência?

Os cientistas descobriram que temos um "Ponto de Deus" no cérebro, uma área nos lobos temporais que nos faz buscar um significado e valores para nossas vidas. É uma área ligada à experência espiritual. Tudo que influência a inteligência passa pelo cérebro e seus prolongamentos neurais. Um tipo de organização neural permite ao homem realizar um pensamento racional, lógico. Dá a ele seu QI, ou inteligência intelectual. Outro tipo permite realizar o pensamento associativo, afetado por hábitos, reconhecedor de padrões, emotivo. É o responsável pelo QE, ou inteligência emocional. Um terceiro tipo permite o pensamento criativo, capaz de insights, formulador e revogador de regras. É o pensamento com que se formulam e se transformam os tipos anteriores de pensamento. Esse tipo lhe dá o QS, ou inteligência espiritual.

Qual a diferença entre QE (Quociente Emocional) e QS (Quociente Espiritual)?

É o poder transformador. A inteligência emocional me permite julgar em que situação eu me encontro e me comportar apropriadamente dentro dos limites da situação. A inteligência espiritual me permite perguntar se quero estar nessa situação particular. Implica trabalhar com os limites da situação. Daniel Goleman, o teórico do Quociente Emocional, fala das emoções. Inteligência espiritual fala da alma. O quociente espiritual tem a ver com o que algo significa para mim, e não apenas como as coisas afetam minha emoção e como eu reajo a isso. A espiritualidade sempre esteve presente na história da humanidade.

No iní¬cio do século 20, o QI era a medida definitiva da inteligência humana. Só em meados da década de 90, a descoberta da inteligência emocional mostrou que não bastava o sujeito ser um gênio se não soubesse lidar com as emoções. A ciência começa o novo milênio com descobertas que apontam para um terceiro quociente, o da inteligência espiritual. Ela nos ajudaria a lidar com questões essenciais e pode ser a chave para uma nova era no mundo dos negócios.

Dana Zohar identificou dez qualidades comuns às pessoas espiritualmente inteligentes. Segundo ela, essas pessoas:

1. Praticam e estimulam o autoconhecimento profundo.
2. São levadas por valores. São idealistas.
3. Têm capacidade de encarar e utilizar a adversidade.
4. São holísticas.
5. Celebram a diversidade.
6. Têm independência.
7. Perguntam sempre "por quê?"
8. Têm capacidade de colocar as coisas num contexto mais amplo.
9. Têm espontaneidade.
10.Têm compaixão.

Autora: LuaEstrela
Fonte:  http://www.sunnet.com.br/home/Noticias/Inteligencia-Espiritual-por-Dana-Zohar.html


Por Walkíria Andrade F.

segunda-feira, 3 de maio de 2010


Consciência

Imagem google

Para falarmos de consciência também devemos falar de sua característica mais central, o ego. Palavra de origem latina que significa “eu”. Consciência é a observação, percepção de nossos próprios sentimentos. A consciência guarda um “eu” central e a partir dele podemos fazer uma grande viagem no infinito espaço da psique onde podemos encontrar resposta, encontrar cada vez mais dúvidas ou criar novas perguntas. Jung sabia que a consciência do ego é a ferramenta para a investigação psicológica. E completa afirmando que o entendimento da psique ou de qualquer outra coisa irá depender do estado de consciência de cada pessoa. Neste momento devemos lembrar que o objetivo de escrever sua obra chave foi oferecer um entendimento crítico da consciência, descrevendo oito tipos psicológicos, estilos cognitivos distintos da consciência humana que vive e processam de formas diferentes as informações e a experiência de vida. (STEIN, 2005)

Jung diz que “Entendemos por ego aquele fator complexo com o qual todos os conteúdos conscientes se relacionam. É este fator que constitui, por assim dizer, o centro do campo da consciência, e dado que este campo inclui também a personalidade empírica, o ego é o sujeito de todos os atos conscientes da pessoa” (STEIN, 2005, p.23).

Stein (2005), explica ainda, que o termo ego dá nome à experiência que o indivíduo tem se si mesmo como um centro de vontade, de desejo, de reflexão e ação. Esse conceito de ego como um centro da consciência permanece constante do começo ao fim dos escritos de Jung.

Stein (2005) pontua, que ao definir ego, Jung estabelece uma diferença decisiva entre características conscientes e inconscientes da psique: “consciência é o que conhecemos e inconsciência é tudo aquilo que ignoramos”(p.23).

Grinberg (2003), explica que a consciência nasce a partir do inconsciente e se desenvolve gradativamente de acordo com alguns modelos. Assim como o corpo, a consciência também evolui e necessita igualmente de cuidados, cresce, adoece e transforma-se ao longo da vida.

Ainda segundo Grinberg (2003), a harmonização à vida interior e exterior é o papel principal do ego. À medida que a consciência aumenta e o ego se estrutura é como se a vida se tornasse mais tranquila. Funções psicológicas são ferramentas que o ego utiliza para vivermos melhor.


 Walkíria Andrade F.


Referência:
FREITAS, Walkíria de A. R. Arteterapia em Consultório: uma viagem interior. Monografia de especialização em Arteterapia, Instituto Junguiano da Bahia (IJBA), Salvador – BA, 2009.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

                       

                             "ParaPollok"

“Gestuar” tua memória
transpor o teu sopro e já
com um olhar passivo
sonho de brincar
sereia, princesa
de bruxa sob o luar
crio cenários de conseqüências
atuar prenhe
identidade singular.

Walkíria Andrade F.
(primavera/2005)


    
"Furacão Rita" Tela: Walkíria Andrade F.

"Furacão Rita"
“Todo mundo é símbolo e magia?”

E poesias... E poesias eu fiz, para filosofar com essa arte ingrata a fim de me reencontrar. Encontrar-me em teus tons, com teu cheiro, com “teu cinza brilhante”, tuas memórias sem fim, só para dançar e chorar por tuas formas e me perder nelas e, de novo em tuas formas me encontrar.

E é pensando em Pollock, na sua loucura, sua fragilidade, na sua paixão e desapego ao compromisso com a vida que me permiti iniciar este texto, tentando atravessar algumas fronteiras para perseguir também, através da poesia, a construção do meu pensamento.

Com pinceladas explosivas acompanhadas de movimentos obstinados Pollock incorpora todo um processo antropológico para dar significado a suas ações e inserções que eram conduzidas num decurso de emoção, ritmo e poesia, traduzindo seus sentimentos e registrando uma referência por ordem do contexto social onde o pós-guerra conferia a humanidade muito conflito, doença, drama e sofrimento.

Segundo Hesse (1989), Pollock perseguia uma ordem que poderia ser o caos que ele buscava estruturar tão obstinadamente na expressão dos seus gestos.

Buscando compreender e expressar a idéia de fenômeno neste trabalho, me utilizo de conceitos expressivos da contemporaneidade para discutir e refletir a realidade existencial do ser, através da investigação caracterizada por vivências e memórias que se dão pela identificação do caráter indiciário.

“Furacão Rita” retrata uma realidade carregada de emoções constituídas por uma resistência ao presente, falta de estímulo e dificuldade para transformar um momento que me parecia nebuloso e sem açúcar até o instante em que percebi que o fazer artístico solicitava-me adjacente ao diálogo entre minha realidade e a realidade da academia, um maior comprometimento e envolvimento com o atual instante.

Numa provocante discussão o mestre Leandro Konder, no seu livro “as Artes das palavra”, defende o realismo de Fernando Pessoa como um realismo existencial interno e conta que o seu heterônimo, Álvaro de Campos, considera: “temos todos duas vidas, a verdadeira que é a que sonhamos na infância e a que continuamos sonhando, adultos, num substrato de névoa, e a falsa, que é a que vivemos em convivência com os outros, que é a prática, a útil, aquela que acaba por nos meter no caixão”.

E, justamente dentro deste processo, num verdadeiro conflito existencial em que rejeitando técnica e suporte, invado o espaço pictórico e simulo um rompimento provocado por pinceladas agressivas e obstinadas, resultando na desconstrução de uma idéia, uma memória que não caberia mais ali.

Assim, nasce “Furacão Rita”, através da desconstrução da forma no plano para rebelar-se contra a tradicional expressão do ser enquanto agente criador. “Quando ocorre a transformação, o caos suplanta a permanência.” (Lippard, 1992, p. 192).

Conseqüentemente, esta ação que denomino de fenômeno, me propiciou um bem estar que foi essencial para o desbloqueio do processo criativo e harmonização do eu, fazendo-me sentir vazia, cheia da ausência de toda obrigação ou mesmo contestação. Pensar “o vazio como um estado necessário para se refletir sobre uma emergência”, contribuiu significativamente para uma melhor elaboração da minha realidade pessoal enquanto agente transformador e transgressor deste espaço do agora, do atual. (Herkenhoff, 2001, p. 26)

Sob uma percepção subjetiva “Furacão Rita” se aproxima da filosofia do expressionismo Alemão, quando segundo Harrison (1998, p. 63), os intelectuais do inicio do século XX acreditavam que através da arte o artista podia transmitir diretamente uma espécie de sentimento interior – emocional ou espiritual. “O que está envolvido nesses processos é explorado em Assim falava Zaratustra (publicado em partes na década de 1890), livro citado regularmente por membros do grupo Brücke, inicia para justificar suas atitudes declaradas em relação à arte. Nele Nietzsche usa a figura de Zaratustra para explorar e opor-se ao condicionamento cultural moderno. Ele declara a morte da religião e a perda do ‘significado’ convencional da vida (no sentido de propósito sobrenatural), defendendo uma tentativa de ‘superar’ esse condicionamento para descobrir outras de expressão e significado. (...) A metáfora da ponte (die Brücke) é usada por Zaratustra no livro para representar a jornada do homem da absorção numa cultura decadente para um estado de liberdade e ‘superação’. No prólogo, Nietzsche escreve em seu estilo epigramático característico: ‘O que é grande no homem é que ele é uma ponte e não um fim: o que pode ser amado no homem é que ele é uma abertura e uma passagem... Amo aquele que não retem uma gota de espírito para si mesmo, mas quer ser inteiramente o espírito de sua virtude: Assim ele transpõe a ponte como espírito.’ (em W. Kauffman, The Portable Nietzsche, p. 127)” (Harrison. p.65, 1998)

Com uma tendência expressionista para qualidade emocional aproprio-me de uma linguagem contemporânea para expressar e simular o rompimento do plano pictórico e desenvolver um tema que confere referência aos grilhões humanos. "Quero expressar meus sentimentos mais do que ilustrá-los”. (Pollock, 1914)

Contudo, “Furacão Rita” se distancia do expressionismo abstrato de Pollok, quando, ao perseguir um novo meio de representar minhas verdades subjetivas simulo o rompimento do plano pictórico através da desconstrução da forma, provocando com esta ação uma ilusão intencional da existência de uma nova dimensão no espaço.

Ainda insatisfeita com a conclusão da obra “Furacão Rita” me utilizo dos recurso da informática para apresentá-la por meio da impressão digital aplicada em poliestireno leitoso.

Finalmente, conduzindo o processo por um outro prisma,"um olhar amoroso", "Furacão Rita" ganha uma nova consciência e dimensão para dar origem à um outro trabalho que denominei de "Gradecidade".

"Furacão Rita” tem como técnica o uso da fotografia enquanto transfer sobre tela, de 80cm x 50cm, adicionada à tinta acrílica.
 

Walkíria Andrade F.
 
 
Referência:
FREITAS, Walkíria de A. R.. Paisagem. Monografia de graduação em Artes plásticas, Escola de Belas Artes (UFBA), Salvador – BA, 2009.

              
 I
Nise da Silveira: Imagem do google


Felinos e as janelas da mente

Nise da Silveira, veterana no combate aos métodos tradicionais de psiquiatria, escreve um pequeno e encantador tratado sobre gatos

Nise: (1905 - 1999)
Publicado em 1998

Aos 93 anos, Nise da Silveira está apaixonada. "Ele é lindo!", suspira a psiquiatra, quando pensa em Belo Antônio. Cinzento e felpudo, Belo Antônio é um das dezenas de gatos que habitam o Parque do Flamengo, área verde do Rio de Janeiro que a médica visita quando o tempo permite e a saudade de Carlinhos aperta. Há quatro meses, desde a morte do bichano Carlinhos, Nise enfrenta os dias sem companhia felina. Mais uma frustração para quem há seis anos sofre por se ver presa à cadeira de rodas e ter perdido uma sucessão de amigos - homens ou gatos. A alagoana que revolucionou a psiquiatria no Brasil e teve seus métodos de cura de esquizofrênicos, pelo afeto e pela alegria, admirados em todo o mundo remedia a saudade e a monotonia escrevendo um livro atrás do outro. No dia 22 de outubro, no Palácio da Cidade, sede da prefeitura carioca, ela vai lançar seu sétimo livro: Gatos, A Emoção de Lidar. Despretensioso, o livro é uma coleção de textos e poemas sobre gatos que Nise escreveu ou selecionou de outros autores. "Eu poderia ter feito um livro que acentuasse mais as maldades que as pessoas fazem com os animais. Mas a tristeza não acrescenta muito", diz Nise, já fazendo planos de escrever um novo livro.

À primeira vista, parece impossível que aquele fiapinho de senhora, dedos entortados pela idade e óculos grossos, possa escrever. Mas Nise escreve. A mão. Todo dia e sempre quando pode. "É um prazer", sorri. A próxima obra deverá ser sobre a psiquiatra Marie-Louise von Franz, sua mestra no período em que estudou em Zurique, no Instituto C.G. Jung, em 1957. Nessa época, Nise já era veterana na guerra contra os métodos tradicionais usados no tratamento da loucura, como os eletrochoques e a lobotomia, uma cirurgia que mutilava o cérebro. Formada em Medicina em 1926 - a única mulher numa turma de 156 homens -, Nise trabalhava em psiquiatria desde 1933. Em 1944, escalada para atender no Centro Psiquiátrico Pedro II, no Rio de Janeiro, recusou-se a dar choques em um paciente. Acabou transferida para o então desprezado setor de terapia ocupacional.

Nise percebeu que a pintura, o desenho e a modelagem poderiam ser meios de expressão para os pacientes impedidos pela esquizofrenia de usar a linguagem verbal. Em 1952, criou no Pedro II o Museu de Imagens do Inconsciente para preservar os trabalhos de seus clientes (como prefere chamar os doentes). A médica considera as obras - são mais de 300 mil - janelas para a psique, uma preciosa ajuda no entendimento dos "inumeráveis estados do ser". Mas críticos - especialmente Mário Pedrosa e Ferreira Gullar - se encantaram com a beleza de trabalhos de internos como Emydio, Adelina e Fernando Diniz. "Emydio estava internado havia 25 anos no Hospital Engenho de Dentro. Era o encarregado de levar a roupa do hospital para a lavandeira. Da primeira vez que pintou fez este quadro", diz Nise, apontando uma bela pintura na parede.

É um dos poucos enfeites nos dois apartamentos modestos do bairro do Flamengo onde Nise vive há quase 50 anos. O de cima é seu escritório, onde lê jornais e livros de Machado de Assis e literatura francesa; o de baixo, moradia. Os dois envelheceram com ela. As paredes estão descascadas; o chão, desbotado. Suas companhias são a secretária Deusilene Moreira Lago e Maria Nilsa Simplício, há 26 anos sua explosiva e carinhosa empregada. "Esta é minha chefe. Ela me repreende e eu aceito", diz, divertida, a médica, que às vezes deixa as duas tontas, com ataques de irritação e crises de insônia. "Nise tem um temperamento forte. É brigona", diz o sobrinho, o engenheiro Vladimir da Silveira.

Além das fotos do marido morto em 1986, o sanitarista Mário Magalhães da Silveira, há muitos retratos do pensador Carl Jung, em cujas idéias Nise baseou boa parte de seus estudos. O próprio psiquiatra suíço lhe deu a pista para a compreensão dos trabalhos dos internos, recomendando o estudo da mitologia. Jung visitou a exposição de obras dos internos do Pedro II que Nise levou para um congresso em 1957. "Ele gostou muito, pois os desenhos confirmavam suas teorias. Era uma pessoa muito simples", lembra, emocionada. Em 1969, Nise fundou no Brasil o primeiro grupo de estudos das obras de Carl Jung. Desde então, todas as noites de quarta-feira o apartamento onde mora está aberto para quem quiser aparecer. "Há muito por estudar", afirma Nise, presença certa. "Ela às vezes nos surpreende citando trechos de Jung, dizendo exatamente o volume e a página", diz Vera Macedo, diretora da Casa das Palmeiras, centro de tratamento que Nise fundou em 1952, em Botafogo. Grupos de estudantes vêm de outros estados para ouvir as discussões. "Quando ela entra na sala, muitas vezes é aplaudida. Acho que é sua única vaidade", conta seu sobrinho Vladimir.

Aos estranhos, ela garante que "fez pouco" em sua carreira. Mas, depois de assistir a uma peça escrita e desempenhada pelos clientes da Casa das Palmeiras, onde acontecem muitas outras atividades artísticas, segredou contente a Vladimir: "Se não existisse um lugar como esse, a maior parte deles estaria em hospícios". O próprio fotógrafo do livro, Sebastião Barbosa, foi um cliente da Casa e ainda hoje, volta e meia, procura a antiga médica e amiga para uma sessão de análise. "Ela resolve qualquer problema. Só não resolve falta de dinheiro", garante.

Autora: Anabela Paiva
http://epoca.globo.com/edic/19981005/cult4.htm#tit


Por Walkíria Andrade F.