sábado, 31 de julho de 2010

As crianças e os seus segredos

  Desenho de Luana Duarte Baralde

Trabalhar com emoções e sentimentos da arteterapia ainda é pouco comum nas escolas. Técnicos realçam potencialidades do método para identificar problemas.

O lápis e o papel branco. A arte-terapeuta Mónica Mariano começa com o material mais familiar para se dar a conhecer ao grupo de seis crianças do 2.º e 3.º anos de escolaridade do 1.º ciclo do Ensino Básico. Os mais pequenos desenham e são estimulados a falar do que lhes vai na alma. Do papel para o barro, do barro para pinturas em papel cenário. Constroem-se casas em cartão, usam-se aguarelas para controlar as tintas mais líquidas. Há berlindes colocados na folha no momento do desenho para que se lide com a frustração de não se conseguir pintar o que se quer. Neste momento, a arte-terapeuta trabalha com marionetas numa das EB1 de Loulé, no Algarve. Mónica Mariano está a realizar o estágio do curso de arte-terapia. Pediu à escola de Loulé que indicasse quais os alunos que tinham problemas ao nível da aprendizagem e do comportamento. Entrevistou as crianças e os pais e seleccionou o grupo com o qual trabalha algumas horas por semana.

É preciso ajustar o método, escolher a arte mais adequada ao grupo. Mónica Mariano adianta que o que se passa dentro das quatro paredes da sala é guardado convenientemente. A arte-terapeuta não entra em grandes pormenores com os pais ou encarregados de educação. Aos professores vai perguntando se há ou não progressos. "Não entro em muitos pormenores. A criança está, de alguma forma, a entregar alguns segredos", explica. "Não vou muito ao detalhe porque a criança precisa dessa confiança", acrescenta. Trabalham-se emoções escondidas, sentimentos guardados que se exteriorizam através dos materiais que são colocados nas mãos. "As crianças podem pintar de outra forma, fazer outra coisa, sem ter de falar das emoções." No fundo, salienta, "trabalha-se mais a criança na sua espontaneidade". Para Mónica Mariano, "a arte-terapia funciona muito bem nas escolas, até em termos de adolescentes porque é um momento que têm para se exprimir, para falar dos seus problemas de uma forma mais livre, não estando restringidos às regras da escola". "É uma forma fantástica de falar das emoções e dos sentimentos", conclui.

Cristina Cruz é arte-psicoterapeuta há seis anos. Exerce psicologia e arte-terapia na EB 2,3 dos Louros na Madeira. Trabalha com alunos dos 10 aos 17 anos, do ensino regular e que frequentam cursos de Educação Formação. Uma sessão de arte-terapia tem três fases. "A primeira de acolhimento das crianças ou dos adolescentes (como foi a semana, acontecimentos especiais de algum aluno); a fase de desenvolvimento onde cada participante expõe as suas angústias de forma expressiva (pintura, escrita criativa, tabuleiro areia, dramatização, colagens), onde depois vamos explorar os sentimentos e emoções de cada um; a fase do encerramento, na qual tentamos conter e sustentar tudo o que se passou na sessão para todos se sentirem acolhidos."

Cristina Cruz considera que a arte-terapia pode ser desenvolvida em qualquer faixa etária. E há frutos que vão sendo colhidos. "O desenvolvimento da criatividade nas crianças e adolescentes proporciona-lhes uma integração diferente da sua forma de percepcionar o meio que os rodeia. De tal forma, que os mediadores da arte-terapia criam um leque de abertura para o próprio self", realça. Na sua perspectiva, há escolas que resistem a abrir a porta a essas experiências. "Penso que nem todas as escolas estão receptivas para esta intervenção. Na escola em que trabalho há uma grande receptividade para a mudança, logo tudo o que surge de novo, e que tenha resultados positivos, é bastante aceite", refere.

Irene Monteiro é psicóloga e está a terminar a formação de arte-terapia. Neste momento, trabalha com um grupo de vítimas de violência doméstica num projecto social. A técnica reconhece que a prática é relativamente nova e que, regra geral, ainda não faz parte de um projecto educativo alternativo. "A arte-terapia pode ser muito útil em contexto escolar porque pode trabalhar com uma população de crianças de risco, em risco de abandono escolar, com dificuldades de aprendizagem, com necessidades educativas especiais." "A intervenção da arte-terapia tem um carácter de tratamento quando há uma problemática instalada. A componente de integração é muito útil", afirma.

Irene Monteiro realça o que a metodologia em que a terapia dá as mãos à arte "trabalha muito de afectos, trabalha questões do foro emocional". "Nas necessidades educativas especiais, a intervenção é muito centrada nos défices cognitivos e a parte emocional, relacional, fica de fora", sublinha. "Na arte-terapia cabem muitas actividades, o que a diferencia é depois o que é feito sobre essas actividades. O arte-terapeuta não é alguém que diz à criança para fazer assim ou de forma diferente, que lhe diz que está bem ou que está mal", acrescenta.

O psicólogo Hugo Cruz usa a arte para trabalhar com alguns alunos recorrendo ao teatro-fórum. A partir de uma peça de teatro, os alunos podem trocar de papéis para mudarem o rumo da história, para tentar resolver problemas identificados na representação. Usa a arte e não a terapia numa lógica, explica, "mais preventiva e educativa e não tanto remediativa". A violência doméstica é o tema que tem percorrido vários estabelecimentos de ensino do concelho de Santa Maria da Feira, onde Hugo Cruz coordena o projecto municipal Direitos & Desafios. O psicólogo afirma que a arte-terapia faz todo o sentido nas escolas. "Pode ser um excelente instrumento para exteriorizar emoções relacionadas com as vivências na escola." "O facto de se ter uma má nota tem uma carga emocional e uma implicação muito fortes", alerta.

A arte-terapia ainda é pouco utilizada nas escolas portuguesas. Esta relação particular entre o sujeito, o objecto de arte e o terapeuta não consta nos planos curriculares. A metodologia é bastante abrangente, uma vez que recorre a diversas componentes artísticas como pintura, desenho, jogos, marionetas, música, expressão corporal, poesia, escrita livre e criativa, colagens, modelagens. Tudo o que estiver ao alcance para abordar emoções e sentimentos. O objecto de arte serve sobretudo para mediar as expressões.

Nas contas feitas pela Sociedade Portuguesa de Arte-Terapia (SPAT) há, neste momento, oito estabelecimentos de ensino a recorrerem a esta prática. "Temos vários membros a actuar em contexto escolar. No Porto, na Grande Lisboa, no Algarve, na Madeira, com grupos diversos em termos de idade, classe social, problemática, etc. A recepção desse tipo de intervenção costuma ser muito boa. Não é mais solicitada por desconhecimento por parte dos profissionais de educação", adianta Daniela Martins, da SPAT. A responsável defende que a arte-terapia deve ser usada em contexto escolar, abrangendo todas as faixas etárias. "As situações podem ser diversas, dependendo do objectivo do trabalho: apoio à aprendizagem, comportamento, desenvolvimento criativo e pessoal, apoio à educação especial, apoio ao desenvolvimento motor, problemáticas específicas do foro psiquiátrico, etc."

No caso concreto das necessidades educativas especiais, Daniela Martins realça que o método pode trazer vantagens ao nível do "apoio ao desenvolvimento cognitivo/motor, apoio à aprendizagem, criação de um espaço de confiança para liberação da dor, facilitar a espontaneidade, trabalhar questões relativas à eventual exclusão social, estimulação sensorial". "A arte-terapia costuma ser muito bem recebida nas escolas, com a utilização das mais variadas técnicas: expressão plástica, musical, dramática, corporal", remata.

Sara R. Oliveira - 2008
http://www.educare.pt/educare/Actualidade.Noticia.aspx?contentid=47B34A8D1F5235B4E04400144F16FAAE&opsel=1&channelid=0


Por Walkíria Andrade F.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Foto: Walkíria Andrade F.

Ensinamento

Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
"Coitado, até essa hora no serviço pesado".
Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.

(Adélia Prado)

Por Walkíria Andrade F.

O que é Individuação? 

Jung: imagem google

“Mudar requer sempre disposição para reconhecer os próprios defeitos e isso dói. Dói despregar-se daquilo em que sempre acreditamos, principalmente em relação a nós mesmos. Autoconhecimento traz muitas dores, mas é uma das únicas estradas que podem nos libertar e levar à realização pessoal mais verdadeira, onde concretizamos toda nossa potencialidade adormecida”.

Para Carl Gustav Jung a individuação é o grande sentido da vida. Mas o que seria esta individuação?

Individuação é o processo de diferenciação psicológica que tem como finalidade o desenvolvimento da personalidade individual. Esse objetivo, todavia, é alcançado por meio de informações arquetípicas e depende da relação vital existente entre ego e inconsciente.

Jung chamou de individuação o processo em que o ser humano torna-se ‘si mesmo’, inteiro, indivisível e diferente “de outras pessoas ou da psique coletiva”.

Jung em uma de suas cartas ao pastor Werner Niederer em 26 de março de 1951, fala da diferença entre perfeição e totalidade, e deixa claro que a totalidade é a meta para a individuação, não a perfeição.

Sobre a individuação, Jung refere-se “à união de luz e sombra, sofrimento e alegria, masculino e feminino”; unidade entre a consciência e o inconsciente; ponte entre as polaridades psíquicas, promovendo a sua união, e traz à consciência parte do conteúdo desconhecido pelo ego; tornar “si-mesmo”, como um ser inteiro, mesmo contendo opostos e diz que o princípio da individuação é a conciliação suprema de opostos.

Na individuação, no que se refere à integração das partes da personalidade, Jung aponta que é preciso lembrar que a personalidade do eu “não contém os arquétipos, mas é apenas influenciada por eles, pois os arquétipos são universais e pertencem a uma psique coletiva sobre a qual o eu não pode dominar”.

Nesse entendimento, o arquétipo é caracterizado por Jung como uma potência psíquica que tem como base a experiência da humanidade e que muito serve à sua individuação quando aparece como símbolo. Imagens específicas levam o sujeito à dimensão coletiva e arquetípica da psique que é distinta da pessoal, que pertence ao ego.

Para Jung, o primeiro estágio do processo de individuação é o confronto com a sombra e lembra que sobre a influência da proximidade entre as pessoas nesse processo, Jung diz: “Diminuir a distância entre as pessoas é um dos pontos mais difíceis e mais importantes do processo de individuação. O perigo é suprimir a distância unilateralmente, causando violação ou ressentimento. Todo relacionamento tem seu ponto ótimo em distância”.

Walkíria Andrade F.


Referência:
FREITAS, Walkíria de A. R. Arteterapia em Consultório: uma viagem interior. Monografia de especialização em Arteterapia, Instituto Junguiano da Bahia (IJBA), Salvador – BA, 2009.